Megadeth transforma possível despedida em celebração catártica em São Paulo

11:41 PM

Dave Mustaine - Foto: Ingrid Natalie

No Espaço Unimed, banda liderada por Dave Mustaine entrega show técnico, intenso e carregado de significado emocional

Despedidas carregam um peso inevitável — e, quando atravessam décadas de história, tornam-se mais do que um fim: viram um ritual coletivo. Foi exatamente essa atmosfera que tomou conta do Espaço Unimed, em São Paulo, no último sábado (02), durante a apresentação do Megadeth. Em meio à turnê “This Was Our Life”, o que se viu não foi um adeus declarado, mas uma recusa quase unânime em encerrar esse capítulo.

No centro dessa resistência está Dave Mustaine, figura que carrega no corpo e na trajetória as marcas de uma carreira construída entre excessos, superação e reinvenção. Sua presença em palco, ainda que mais contida em comparação a décadas anteriores, segue imponente — menos explosiva, talvez, mas carregada de intenção e controle.

Megadeth durante show em São Paulo - Foto: Ingrid Natalie

ABERTURA AVALASSADORA

A abertura, às 21h35, apostou em "Tipping Point", faixa do álbum "Megadeth" lanaçado em janeiro de 2026, prontamente reconhecida pelo público, que respondeu em coro com uma precisão quase ensaiada. Era o primeiro sinal de que, naquela noite, a conexão não dependeria apenas da nostalgia. Em seguida, “The Conjuring” trouxe um peso mais sombrio e técnico, evidenciando a afinação cirúrgica da banda e arrancando uma das primeiras grandes reações da plateia.

Clássicos como “Hangar 18” reafirmaram o virtuosismo que consolidou o nome do grupo dentro do thrash metal, com solos executados com precisão milimétrica e dinâmica impecável. Já “She-Wolf” e "Sweating Bullets" encerraram o primeiro bloco com riffs cortantes e um público completamente entregue, transformando a pista em um organismo coletivo pulsante.

REPERTÓRIO EQUIBILIBRADO ENTRE CLÁSSICOS E NOVIDADES

O set seguiu com escolhas inteligentes, equilibrando o previsível e o surpreendente. De um lado, momentos quase obrigatórios para quem acompanha o Megadeth ao vivo — como a dobradinha “Wake Up Dead” e “In My Darkest Hour”, recebidas com entusiasmo imediato —; de outro, faixas menos recorrentes, mas longe de serem descartáveis, como “Dread and the Fugitive Mind” e “Hook in Mouth”, que reforçaram o peso e a complexidade do repertório. Do álbum mais recente, ainda tiveram "I Don't Care" e "Let There Be Shred".

Megadeth durante show em São Paulo - Foto: Ingrid Natalie

BANDA EM TOTAL SINTONIA 

À frente do Megadeth, Dave Mustaine segue como figura central, mas sem monopolizar o palco. Há uma dinâmica mais generosa em cena: ao abrir espaço para Teemu Mäntysaari nos solos, especialmente no centro do palco, Mustaine contribui diretamente para que o guitarrista finlandês se mostre cada vez mais seguro — algo que se soma à sua já evidente precisão técnica.

No baixo, James LoMenzo adiciona peso e presença com um timbre encorpado e uma postura energética que sustenta a base do show com consistência. Já Dirk Verbeuren transforma a complexidade rítmica característica da banda em algo quase fluido: sua execução faz com que estruturas intrincadas soem naturais, como se fossem, de fato, simples.

RIDE THE LIGHTNING: O MOMENTO QUE TODOS ESPERARAM

Um dos momentos mais simbólicos da noite veio com a execução de “Ride the Lightning”. Originalmente lançada pela Metallica em 1984, a faixa ganhou uma nova leitura ao integrar o álbum Megadeth (2026) como regravação. Ao vivo, sua presença transcende o aspecto musical: funciona como um gesto de reconciliação histórica, ressignificando uma composição ligada diretamente às origens turbulentas de Mustaine. É um instante em que passado e presente colidem — e se reorganizam diante do público.

ENCERRAMENTO PREVISÍVEL, MAS TOTALMENTE EFICAZ

O encerramento seguiu um roteiro previsível — mas ainda assim eficaz. “Peace Sells” e “Holy Wars… The Punishment Due” funcionaram como hinos incontestáveis, conduzindo a plateia a um estado de catarse coletiva difícil de rivalizar. Antes da despedida, Dave Mustaine se dirigiu ao público com um agradecimento direto, afirmando a conexão com São Paulo ao declarar que a noite havia sido especial — e que, ali, eles “foram o Megadeth.

Em “Peace Sells”, o elemento visual ganhou protagonismo com a entrada de duas versões de Vic Rattlehead no palco — uma vestida de preto, outra de branco — em referência estética à nova fase da banda. A interação com o público e os músicos adicionou um caráter quase teatral ao momento, ampliando o impacto de um desfecho que, embora esperado, soube explorar bem seus próprios símbolos.

Dave Mustaine - Foto: Ingrid Natalie

SERÁ MESMO UMA DESPEDIDA?

Seria injusto cravar que este tenha sido o último show do Megadeth no Brasil. A apresentação única teve ingressos esgotados rapidamente — impulsionada não apenas pelo discurso de despedida, mas também pela sólida e duradoura popularidade da banda no país. No fim das contas, o que se viu na noite de 2 de maio, em São Paulo, esteve longe de soar como um adeus definitivo. Para um público que respondeu com intensidade do início ao fim, ficou a sensação de um “até logo” — daqueles que ainda carregam a promessa de retorno.

SETLIST:

  • Tipping Point
  • The Conjuring
  • Hangar 18
  • She-Wolf
  • Sweating Bullets
  • I Don’t Care
  • Dread and the Fugitive Mind
  • Wake Up Dead
  • In My Darkest Hour
  • Hook in Mouth
  • Let There Be Shred
  • Symphony of Destruction
  • Tornado of Souls
  • Mechanix
  • Ride the Lightning (Metallica)
ENCORE
  • Peace Sells
  • Holy Wars… The Punishment Due


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