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| Foto: Tomás Gomes |
Em conversa com o Female Rock Squad, a vocalista Michelle Marques aborda saúde mental, luto, os desafios da cena independente e o desejo de inspirar outras mulheres no rock
Por: Ingrid Natalie (instagram: @femalerocksquad)
Formada em Montes Claros, Minas Gerais, a Lado Blue vem conquistando espaço na cena independente com uma sonoridade que transita entre o blues rock, o grunge e o rock alternativo. O trio, composto por Michelle Marques (vocal e guitarra), Pedro Emanuel (baixo e backing vocals) e Matheus Leche (bateria e backing vocals), encontrou na música autoral uma forma de traduzir inquietações, afetos e experiências profundamente humanas.
Após os primeiros passos interpretando covers, a banda decidiu investir na própria identidade artística, culminando no lançamento de Estilhaços, álbum de estreia que reúne nove faixas marcadas pela honestidade emocional e por letras que abordam temas como saúde mental, luto, autocobrança e os desafios da vida adulta.
A entrevista com Michelle Marques revela muito mais do que os bastidores desse primeiro trabalho. Entre os desafios de manter uma banda autoral no interior de Minas Gerais, as dificuldades enfrentadas pela cena independente e a necessidade quase visceral de transformar vivências em música, a vocalista e guitarrista mostra que Estilhaços é um disco construído a partir da vulnerabilidade e da coragem.
Em conversa com o Female Rock Squad, Michelle falou sobre o processo criativo da Lado Blue, as influências que moldaram a sonoridade do grupo e a história profundamente pessoal por trás da faixa-título — uma das mais emocionantes do álbum. O resultado é um retrato sensível de artistas que seguem abrindo caminho no rock nacional sem abrir mão da própria essência.
FRS: A Lado Blue nasceu em Montes Claros, longe dos principais polos da indústria musical. Como foi construir uma banda autoral nesse contexto e quais desafios vocês enfrentaram no início?
Michelle Marques: Apesar de termos uma cultura muito rica aqui na nossa cidade, é muito difícil se deslocar para fazer shows. Tudo fica mais caro: desde a oferta de estúdios de gravação até as casas de show, tudo é muito limitado. Quando pensamos em fazer apresentações independentes em outras cidades, precisamos reservar uma grana para não depender apenas do cachê ou da bilheteria para custear a viagem. Ao mesmo tempo, manter a banda tocando apenas na cidade também não é viável, porque o público acaba chegando a um limite. É preciso sair, circular e fazer as músicas rodarem. Então é uma luta constante para manter a banda respirando.
FRS: Vocês começaram tocando covers antes de apostar totalmente nas músicas próprias. Em que momento perceberam que era hora de mostrar ao público a verdadeira identidade da banda?
Michelle Marques: Por mais divertido que seja tocar músicas dos artistas que admiramos, nós três somos pessoas criativas. A gente gosta de criar, então foi um impulso natural. Eu, como letrista, gosto muito de escrever e sinto isso quase como uma necessidade. Acho importante colocar mais de si em um projeto artístico; criar é uma forma de trazer coisas novas para o mundo.
FRS: O álbum "Estilhaços" carrega um título muito simbólico. Qual é o significado desse nome e como ele se conecta com as histórias contadas ao longo do disco?
Michelle Marques: Estilhaços é uma das faixas do álbum e eu nunca contei isso em nenhuma entrevista. Mas essa pergunta foi muito certeira, então vou falar sobre isso pela primeira vez. Meu avô paterno cometeu suicídio há alguns anos, e eu percebi que não tinha elaborado bem essa perda. Quando escrevi a letra, entendi que precisava falar sobre isso. Ele era uma pessoa muito querida, e acho que ninguém percebeu que estava no limite, carregando um peso enorme e se sentindo um fardo para as pessoas ao redor. Foi uma morte muito triste. Cheguei a ouvir de algumas pessoas religiosas da família que a alma dele estaria perdida. Eu quis trazer esses sentimentos para a música e refletir sobre eles. Por isso, Estilhaços é uma canção muito especial para mim.
FRS: As composições abordam temas bastante íntimos, como frustrações, afetos e saúde mental. Houve alguma faixa que foi especialmente difícil de escrever ou gravar?
Michelle Marques: "Estilhaços" é sempre a música que mais me pega emocionalmente, justamente por tudo o que contei antes. Para mim, é a faixa mais íntima do disco. Sempre fico mais introspectiva quando a canto ao vivo. Acho que ela é um ponto muito sensível tanto do álbum quanto do show.
FRS: Como funciona o processo criativo dentro da Lado Blue? As músicas surgem a partir de uma ideia individual ou são construídas coletivamente?
Michelle Marques: Geralmente eu trago a música mais ou menos pronta, com letra, melodia e harmonia. Depois levo para o ensaio com os meninos e a gente trabalha os arranjos juntos. Eles sugerem mudanças, a gente testa várias ideias até chegar à versão final. No geral, as composições partem de mim, mas agora, com mais tempo de banda, eles também têm trazido ideias e contribuído cada vez mais para o processo.
FRS: "Fracasso" fala sobre as pressões e o esgotamento da vida contemporânea. O que motivou vocês a abordar esse tema e por que acreditam que ele dialoga tanto com o público atualmente?
Michelle Marques: "Fracasso" fala muito sobre a autocobrança que a nossa geração tem vivido. Somos a geração que acreditou que chegaria aos 30 anos com carro, casa própria e um salário de dez mil reais. Mas, na realidade, muita gente não consegue nem pagar o aluguel sozinha. A música é quase uma sátira disso tudo. Eu me sinto assim às vezes, e conheço muitas pessoas da minha idade que também se sentem. Parece uma grande angústia coletiva.
FRS: Quais artistas e bandas tiveram maior influência na sonoridade apresentada em Estilhaços? Existe alguma referência que talvez surpreenda os ouvintes?
Michelle Marques: Tem muita influência de The Pretty Reckless e Pitty, porque me inspiro bastante em mulheres do rock. Mas uma influência que talvez surpreenda as pessoas é Arctic Monkeys. Tem um riff de guitarra em Fracasso que eu “roubei” deles um pouquinho.
FRS: Na opinião de vocês, o que a cena independente brasileira precisa para que mais bandas autorais consigam alcançar novos públicos e consolidar suas carreiras?
Michelle Marques: Acho que precisamos de mais casas de show que apoiem artistas independentes e de pequeno porte, como é o caso do Estúdio Central, que vai receber a gente em BH. Também precisamos que os projetos de fomento à cultura sejam mais acessíveis para financiar trabalhos artísticos. É importante continuar fazendo a roda girar e criar mais espaços para quem está começando.
FRS: Se "Estilhaços" pudesse deixar apenas uma mensagem para quem ouvir o álbum do início ao fim, qual vocês gostariam que fosse?
Michelle Marques: Acho que a mensagem seria: não se sinta sozinho. Tem muita gente se sentindo dentro de um barco furado, mas isso não significa que seja o fim da linha. Dá para continuar lutando, criando e fazendo as coisas que você ama. E, principalmente para as mulheres da cena do rock: a gente está aqui para ser vista. Vamos ocupar o nosso espaço.
SHOW EM BELO HORIZONTE EM 20 DE JUNHO
A Lado Blue desembarca em Belo Horizonte no próximo dia 20 de junho para apresentar ao vivo as músicas de Estilhaços (2025), álbum de estreia do trio mineiro. Mais do que divulgar o trabalho para além das plataformas digitais, a apresentação representa a oportunidade de estreitar os laços com o público que acompanha a banda pelas redes sociais e vivenciar, de perto, a intensidade emocional que marca suas composições. "Nossa cidade natal é um ponto muito isolado dos grandes centros e a gente quer rodar por aí com o trabalho que produzimos no estúdio", destaca o grupo. Para quem busca conhecer novos nomes do rock nacional independente, o show promete ser uma experiência imperdível.
Serviço | Lado Blue - Turnê “Estilhaços”
Data: 20 de junho de 2026
Horário: A partir das 19h
Local: Estúdio Central
Ingressos: R$ 25 antecipado | R$ 35 na portaria
Ingressos: https://shotgun.live/pt-br/events/lado-blue-no-estudio-central
Classificação indicativa: 18 anos
- 11:07 AM
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