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| CRUA s.a. | Foto por Alexsander Ferraz |
Da amizade de duas décadas ao nascimento de uma nova identidade musical, Candy e José Mazzeo transformam experiências, liberdade criativa e rock visceral no EP “Intuição”
Alguns encontros parecem acontecer no momento exato em que precisam acontecer. No caso de CRUA s.a., o reencontro entre a cantora e compositora Candy e o multi-instrumentista José Mazzeo aconteceu depois de mais de duas décadas de história compartilhada e acabou reabrindo uma porta que Candy acreditava ter fechado.
O que começou com uma conversa entre dois velhos amigos e 13 bases instrumentais enviadas por Mazzeo se transformou em Intuição, EP que reúne sete faixas construídas a partir da combinação entre os arranjos do músico e as melodias e letras de Candy. O resultado é um trabalho que aposta no peso do rock, em riffs marcantes, vocais intensos e letras que procuram ultrapassar definições e rótulos.
A própria concepção da CRUA s.a. escapa das classificações convencionais. Para a dupla, não se trata simplesmente de uma banda, mas de um “DUAL FULL RANGE”: duas pessoas que funcionam de maneira complementar e simbiótica na criação.
O projeto também marca uma nova fase para dois artistas com décadas de trajetória musical. E, para Candy, assumir que está vivendo essa nova etapa aos 50 anos é parte fundamental da própria mensagem.
A história da CRUA s.a. começou antes mesmo de existir a ideia de um EP. José Mazzeo e Candy já haviam trabalhado juntos em uma banda cerca de 20 anos atrás, mas seguiram caminhos diferentes. Quando Mazzeo se preparava para retornar a Santos, o acaso — ou a intuição — tratou de aproximá-los novamente.
“Vi um Story da Candy, uma amiga das antigas, andando na praia, e perguntei sobre como andavam as coisas e tal, quando ela me conta que agora morava no Guarujá, cidade vizinha, na Baixada Santista”, lembra Mazzeo.
O músico enxergou naquele reencontro uma possibilidade de voltar ao cenário autoral. Ele conhecia o talento de Candy como cantora e compositora e decidiu apostar novamente na parceria. Em janeiro, enviou a ela 13 músicas completas, mas sem vocais.
Para Candy, no entanto, a ideia de voltar ao rock autoral não parecia fazer parte de seus planos.“Mazzeo fez contato comigo e me falou que voltaria pra Santos. Eu tinha mudado pra Guarujá havia seis meses. Ele me falou sobre o desejo de fazer um trampo de rock autoral, mas eu achava que isso era uma página virada na minha vida.”
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| Candy| Foto por Alexsander Ferraz |
Até que as músicas chegaram. “Quando recebi, eu estava andando na mesma praia, na mesma vibe, que o vídeo que postei quando ele me chamou. Eu me sentei numa pedra, em frente à maré, e quando dei play fiquei extasiada. As músicas atravessaram minha corrente sanguínea e atingiram meu âmago.”
O impacto foi imediato. Em apenas 15 dias, Candy havia composto cinco melodias e letras que se encaixavam nas bases criadas por Mazzeo. “Pra mim, o momento que saquei o tamanho do nosso potencial foi quando Mazzeo me recebeu em casa e gravamos voz no estúdio dele. Foi um dia absolutamente mágico.”
Para Mazzeo, a percepção foi semelhante. “Era justamente aquilo que faltava, A Voz! Daí em diante Candy deu vida a estas músicas transformando em lindas canções.”
A forma como a CRUA s.a. se constrói também explica por que Candy e Mazzeo preferem não se definir simplesmente como uma banda.
“Acho que a gente é supercomplementar. Na real, considero nossa construção musical, simbiótica”, explica Candy. “Além disso, a forma como eu recebi as composições já era uma banda completa, Mazzeo tinha gravado tudo. Claro que quando a gente for para o palco, teremos outros músicos com a gente.”
Mazzeo amplia a definição e descreve a dupla como duas partes que dependem uma da outra para formar um todo.
“Somos duas partes interdependentes de um todo. Duas abrangências artísticas com suas singularidades e possibilidades na busca de uma identidade sonora e discursiva. Somos um conjunto binário de milhões de combinações sonoras.”
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| Mazzeo | Foto por Alexsander Ferraz |
Para ele, a ausência de uma formação tradicional também interfere diretamente no processo criativo. “O fato de não haver uma gig formal de rock band reduz o movimento necessário de decisões até que se conclua o arranjo instrumental.”
É justamente nessa liberdade que a CRUA s.a. encontra parte de sua identidade: menos intermediários, menos convenções e mais espaço para que duas sensibilidades diferentes se encontrem.
Musicalmente, Intuição nasce de referências bastante amplas. Candy não se prende a um único universo sonoro e revela uma escuta que transita por diferentes gerações, estilos e linguagens. “Eu sou muito eclética para ouvir e absorver música, ouço muita coisa mesmo. De Luiz Gonzaga a QOTSA, Clube da Esquina a Nirvana, Luiz Melodia a Fiona Apple.”
Essa diversidade também aparece na maneira como a cantora escreve. Mais do que contar histórias específicas, ela procura transformar experiências e questionamentos pessoais em letras capazes de alcançar diferentes pessoas.“Estou pensando, vivendo e agindo como escrevo nas letras, estou na busca intensa pelo meu autoconhecimento e por achar significado na minha existência”, comenta Candy.
É dessa busca que surgiu também uma escolha importante para o EP: escrever, na maior parte das faixas, sem estabelecer gênero para os personagens das histórias. “Quis escrever letras sem gênero, onde a identificação pudesse ser ampliada”, diz Candy.
A exceção é “Ela Quer +”, faixa inspirada na história de uma mulher trans com quem Candy teve uma conversa marcante em 2008.
Já Mazzeo parte de um repertório de referências que atravessa diferentes momentos do rock. Entre os nomes citados pelo músico estão Secos & Molhados, Tutti-Frutti, O Terço, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, David Gilmour, Black Sabbath, Eddie Van Halen, A Perfect Circle e Limp Bizkit, além de influências da música erudita. O encontro dessas referências não resulta em uma tentativa de reproduzir o passado, mas em uma sonoridade que utiliza o rock como matéria-prima para uma nova fase.
Se Candy transforma experiências pessoais em letras, Mazzeo encontrou em Kryptus uma maneira de expandir sua própria identidade artística.
O personagem nasceu como um arquétipo e uma persona experimental. Mais do que um simples alter ego, Kryptus representa a possibilidade de explorar caminhos que não necessariamente passam pelas conexões habituais de José Mazzeo.
“Kryptus artisticamente já diz tudo por mim. Minha intenção ao criar um personagem é justamente desvincular meu Eu experimental das conexões mentais atuais, vivendo uma experiência Fora da Caixa, um gerador de riffs com a intenção de transformação, de superação.”
A criação reforça uma característica fundamental da CRUA s.a.: a disposição para experimentar sem necessariamente obedecer às expectativas sobre como um artista deve se apresentar ou se comportar.
A experiência audiovisual de Intuição também nasceu de maneira espontânea. Inicialmente, Candy e Mazzeo pretendiam realizar uma sessão de fotos e gravar um visualizer. O encontro, porém, acabou produzindo material suficiente para que cada uma das sete faixas ganhasse seu próprio vídeo. “Queríamos ter uma imagem que fosse real, que não fosse apenas uma cara gráfica em looping”, explica Candy.
A proposta era simples: um cenário, uma câmera fixa e a dupla interpretando as músicas na ordem do EP. Não havia um roteiro rígido.
“Então não tínhamos roteiro, apenas uma ideia espacial da cena, mas quando deu REC, a gente saiu interpretando, livres como somos, de forma CRUA.”
A espontaneidade acabou produzindo um resultado que surpreendeu a própria dupla. Depois de editar o vídeo de “1%”, Candy percebeu que o material havia ganhado a dimensão de um videoclipe.
“Então editei os outros seis vídeos e estão no ar, superdivertidos!”
Mais do que ilustrar as músicas, os vídeos acabam funcionando como uma extensão da proposta da CRUA s.a.: mostrar os artistas sem uma camada excessiva de elaboração, permitindo que a interpretação e a atmosfera das canções conduzam o resultado.
De volta para o futuro
Talvez a característica mais potente da CRUA s.a. esteja justamente na decisão de não tratar a maturidade como um ponto final.
A dupla faz questão de se apresentar como “duas almas de 50+”, mas Candy vai além: para ela, assumir sua idade e falar abertamente sobre a menopausa também é uma forma de confrontar o etarismo e questionar os estereótipos que ainda cercam mulheres maduras na sociedade e, especialmente, na arte.
“Faço questão de falar que sou uma mulher com 50 anos, em plena menopausa e que na verdade estou vivendo uma fase muito vibrante de transformações e recomeços.”
Para Candy, essa consciência não diminui sua potência artística. Pelo contrário.
“É muito importante trazer o etarismo à tona e quebrar o estereótipo limitante. Me sinto potente e muito capaz de realizar o que estamos fazendo. Isso se reflete na minha escrita, sem dúvida.”
A vontade de continuar criando, portanto, não nasce de uma tentativa de recuperar o passado, mas da necessidade de continuar se transformando.
“A arte pulsa nas veias e pede pra mente a expressão, a reinvenção em forma de Rock!”
E, se essa fase da vida precisasse ser resumida em um título, Candy já sabe qual seria:
“Se esse momento da minha vida fosse um título de filme, seria: ‘De Volta Para o Futuro’.”
Talvez seja justamente essa a essência da CRUA s.a. — olhar para tudo o que veio antes sem ficar presa ao passado. O reencontro entre dois amigos de longa data não resultou apenas em novas músicas, mas em uma oportunidade de descobrir o que ainda existe para ser dito, experimentado e vivido.
Em Intuição, Candy e Mazzeo transformam essa descoberta em rock: visceral, direto, livre e, acima de tudo, vivo.
- 6:20 PM
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