Jonabug reflete sobre mudanças pessoais e profissionais em 'Torpor', novo EP

10:34 AM

jonabug por Giulia Geyer

Em entrevista ao Female Rock Squad, a banda do interior de São Paulo fala sobre o processo de criação de Torpor, composição em português, a experiência no Lollapalooza e os caminhos que a levaram até esta nova fase

Depois de apresentar ao público o álbum três tigres tristes, lançado em 2025, a Jonabug abre um novo capítulo de sua trajetória com o EP Torpor. O trabalho marca não apenas uma nova coleção de músicas, mas também uma mudança na dinâmica criativa da banda, que passou a contar com Thales Leite na segunda guitarra.

Produzido, mixado e masterizado por Roberto Kramer, Torpor mergulha em sentimentos íntimos e transformações, ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades sonoras exploradas pelo grupo. A nova fase chega depois de um momento importante para a banda: a participação no Lollapalooza Brasil 2026, experiência que colocou a Jonabug ainda mais em evidência e levou o som da banda de Marília para um público maior.

Em conversa com o Female Rock Squad, Marilia, Dennis e Samuel falam sobre liberdade criativa, composição em português e inglês, o caráter catártico das músicas, a experiência no Lollapalooza, a parceria com Roberto Kramer e os próximos passos da banda.

FRS: O EP Torpor apresenta uma dinâmica diferente em relação ao álbum três tigres tristes, inclusive pela entrada do Thales na segunda guitarra. Como essa mudança interferiu no processo de composição e gravação?

Marilia: Torpor foi muito colaborativo. Ele é diferente do álbum porque, na época do três tigres tristes, éramos um trio. Agora temos o Thales, então a dinâmica de composição mudou bastante com a entrada de mais uma pessoa. O Roberto Kramer também teve uma participação muito importante na produção, mixagem e masterização. Ele trouxe muitas ideias e direcionamentos.

A gente ainda tem pouca experiência de estúdio e os trabalhos anteriores também foram gravados no mesmo estúdio, então foi um processo de muito aprendizado. Estamos muito felizes com o resultado e, ao mesmo tempo, bastante ansiosos para ver como as pessoas vão receber.

FRS: A Jonabug surgiu depois de uma mudança de direção musical em relação à Yellow Guava. O que vocês sentiam que estava faltando e encontraram na nova banda?

Marilia: Liberdade criativa. Na Yellow Guava, a gente sentia que estava muito preso a fazer uma coisa só. Com a Jonabug, conseguimos experimentar coisas diferentes. Temos músicas mais leves, outras mais pesadas. Também foi uma mudança pessoal. Estávamos saindo da adolescência e entrando na vida adulta. As coisas começaram a ficar mais sérias, e isso também apareceu na música.

FRS: O álbum três tigres tristes, lançado em 2025, reuniu músicas compostas em momentos diferentes. Que retrato vocês queriam deixar registrado naquele trabalho?

Marilia: A gente queria mostrar nossa música e nossa capacidade musical. As músicas foram sendo acumuladas ao longo do tempo. Algumas já tocávamos havia dois anos quando gravamos.

Dennis: Algumas foram reestruturadas, mudaram bastante, outras foram cortadas ou substituídas. Também teve música que foi feita pouco antes da gravação.

Marilia: Era uma espécie de compilação das músicas que tínhamos composto e aprimorado ao longo do tempo. Queríamos mostrar tudo o que conseguíamos fazer: músicas pesadas, músicas leves, em inglês, em português. Queríamos mostrar a nossa verdadeira vibe.

FRS: Vocês transitam entre português e inglês. O português traz uma liberdade diferente para falar sobre sentimentos ou existe também uma responsabilidade maior por estar falando diretamente com o público brasileiro?

Marilia: As palavras em português têm mais peso. Quando canto em português, sinto que estou realmente encarando aquilo. Em inglês, às vezes parece que estou “dublando o sentimento”. Nos shows, também percebo isso. O público canta mais as músicas em português e muitas pessoas pedem que a gente faça mais músicas assim.

Mas não vamos parar de fazer músicas em inglês. Eu cresci estudando inglês e aprendi muito da pronúncia através das músicas. Só que, em português, sinto uma responsabilidade maior de conseguir me conectar com as pessoas daqui e com quem fala português.

FRS: As músicas de Torpor lidam com transformações e questões bastante íntimas. Até que ponto compor e tocar essas músicas ajuda vocês a lidar com a própria vida? A música funciona como uma espécie de cura?

Marilia: Para mim, cada música é como tirar um peso dos ombros. Quando tocamos ao vivo, é muito catártico. É como se eu conseguisse tirar um pouco daquele sentimento de dentro de mim.

Dennis: Acho que a gente continua tirando esse estresse e esse peso nos shows. É uma forma de ressignificar as coisas.

Samuel: Na composição, a Marilia e o Dennis geralmente chegam com a guitarra, o baixo ou a letra, e eu tento entender o que aquela música conversa comigo. Não necessariamente o significado da letra, mas o sentimento que os acordes e a melodia passam. Para mim, compor também é uma forma de expressar sentimentos. Like and Be Free, por exemplo, é uma música triste, mas termina em uma explosão. É aquela sensação de “já estou muito triste, não aguento mais isso e vou simplesmente explodir”. Colocar isso na música, na composição, na bateria e na melodia vocal é uma maneira de expressar o que estou sentindo.

FRS: Entre as músicas de Torpor, qual vocês estão mais ansiosos para tocar ao vivo?

Samuel: Eu já toquei 'I Can't Be With You', inclusive no Lollapalooza, e talvez seja a minha favorita do EP. Gosto muito do resultado, da composição e da bateria. A estrutura é parecida com a original, mas fizemos algumas mudanças na guitarra e nos vocais, e a letra também mudou. Depois de tanto tempo tocando as músicas de três tigres tristes — por dois anos, dois anos e meio — é muito legal ter músicas novas. Agora o público vai conhecer essas músicas, vai poder formar uma roda, se divertir. Estou muito ansioso para tocar essa ao vivo.

Dennis: Eu estou bastante ansioso para 'Is This the End'. A gente já tocou, então quero muito ver a reação do público. Também tem 'Entre o Certo e o Errado', com participação da Cidade Dormitório, que nunca tocamos ao vivo. Para nós mesmos ela ainda é muito nova.

Marilia: Acho que estou mais ansiosa por 'Entre o Certo e o Errado'. Todas as outras já tocamos. Nessa, vou cantar a parte que era do Yvis, então vamos precisar usar alguns efeitos para preencher algumas coisas que existem na gravação e que nem sempre conseguimos reproduzir ao vivo.

FRS: A participação no Lollapalooza Brasil 2026 foi um momento importante para a banda. Como vocês receberam o convite e como foi viver aquela experiência?

Dennis: O convite chegou por uma mensagem no Instagram. Um curador do Lollapalooza, o Marcelo, mandou perguntando como poderia fazer para colocar a Jonabug no Lolla 2026. A gente pensou: “Isso aí é golpe!”. Não conhecíamos o Marcelo e simplesmente chegou uma mensagem aleatória no Instagram.

Samuel: Foi muito difícil acreditar.

Dennis: A gente passou o contato, a Marilia conversou com ele e depois tudo foi formalizado por e-mail. E aconteceu. Depois do anúncio, foi uma loucura. A publicação teve uma repercussão enorme e saímos em vários portais, inclusive portais da cidade. Foi a primeira vez que tivemos esse tipo de alcance.

Marilia: Foi muito bonito porque a cidade inteira comemorou o fato de uma banda daqui estar no Lollapalooza. Foi uma vitória coletiva.

Dennis: No dia do show, encontramos amigos, bandas parceiras e fãs. Também teve muita gente que conheceu a banda ali. Foi uma experiência muito positiva.

FRS: Vocês vêm de Marília e construíram boa parte desse caminho de forma independente. Quais pessoas, bandas, produtores, espaços ou iniciativas foram fundamentais para que a Jonabug chegasse até aqui?

Samuel: É difícil citar todo mundo. Desde a nossa primeira viagem do interior para São Paulo até aproximadamente dois anos depois, quando começamos a nos virar sozinhos, muita gente ajudou.

Amigos ofereciam casa para a gente dormir e ajudavam a economizar dinheiro. Fotógrafos faziam fotos e vídeos como amigos mesmo. Produtores colocavam a gente em eventos e davam oportunidades. Os espaços também foram fundamentais.

No começo das nossas viagens para São Paulo, tínhamos um EP e dois singles, mas já tínhamos mais músicas. Levar nosso show para a capital foi muito importante.

Samuel: Sim. A imprensa, os portais, os blogs, pessoas como você fazendo entrevistas. Tivemos a sorte de encontrar um ecossistema muito bom. Somos muito gratos a todas as pessoas que ajudaram, que gostaram da banda ou simplesmente simpatizaram com o nosso trabalho. Cada uma teve um papel essencial.

FRS: Roberto Kramer já trabalhou com nomes como Rancore e Terno Rei e teve uma participação importante em Torpor. O que ele acrescentou ao processo de vocês?

Dennis: O Roberto acrescentou muita coisa. Entre o Certo e o Errado era a música mais incompleta. A gente pediu ajuda para ele na construção, e ele trouxe referências que gostávamos, mas que ainda não tínhamos conseguido conectar à música. Ele mostrou caminhos. Ajudou nas guitarras, nos timbres, nos equipamentos, nos pedais, na bateria. Foi muito foda.

Marilia: Ele também foi muito paciente e dava conselhos de uma forma muito construtiva. A gravação trouxe muito conhecimento para a gente e contribuiu para nosso crescimento como músicos. Foi muito importante poder falar “não sei o que estou fazendo” e ele conseguir nos orientar. Quando acontecia algum erro, ele também sabia lidar muito bem com a situação.

capa do EP pela artista  Nicole Wünsch

FRS: A identidade visual de Torpor também chama atenção, especialmente pelo contraste entre o azul e o vermelho. Como nasceu esse conceito?

Marilia: Depois que terminamos a gravação, sentimos que o EP seria azul. Queríamos uma identidade visual mais séria e abstrata. O vermelho dentro do azul veio de uma inspiração na capa de Kid A, do Radiohead. Para nós, o vermelho fazia sentido com o conceito de “torpor”. A ideia era sermos um ponto vermelho dentro do azul, “numa geração fria”, enquanto as músicas trazem sentimento. A Nicole entendeu exatamente o que queríamos e criou dentro dessa proposta. Ela também fez o flyer da turnê e o encarte do CD. A Nic é top. Trabalharia com ela novamente com certeza.

FRS: Depois de Torpor, quais são os próximos passos da Jonabug? Já podemos esperar uma turnê?

Marilia: A turnê do EP será anunciada na próxima semana. Teremos muitas datas até janeiro do ano que vem, passando por lugares novos e também por lugares onde já tocamos. Também teremos shows com bandas que admiramos. Para o ano que vem, queremos muito chegar ao Nordeste e já estamos estruturando isso. Vai ter bastante coisa acontecendo.

FRS: Se vocês pudessem voltar ao início da Jonabug e conversar com aqueles três músicos que estavam começando, o que diriam para eles?

Samuel: Talvez nada. Todos os erros que cometemos fizeram parte do caminho. Como banda do interior, cada proposta para tocar na capital brilha muito aos nossos olhos, mas nem toda proposta é boa. A gente aprendeu também com as experiências ruins. Se mudássemos alguma coisa do passado, talvez nossas composições fossem diferentes. Então estamos satisfeitos com o caminho que percorremos.

Marilia: Eu também não diria nada. Acho que tudo aconteceu por uma razão. E tudo o que ainda não aconteceu não aconteceu por uma razão também. Vai acontecer no tempo certo.

Dennis: É isso. Viver um dia de cada vez.

jonabug por Giulia Geyer


Confira a entrevista em vídeo:



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