THE BAND FEEL resgata a essência do rock clássico sem soar presa ao passado em 'What Of Now'
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| The Band Feel |
Com 13 faixas, álbum de estreia do quarteto norte-americano equilibra referências dos anos 1960 e 1970 com uma sonoridade contemporânea, transitando pelo rock, blues, soul e psicodelia
Existe algo particularmente interessante quando músicos jovens escolhem olhar para o passado sem necessariamente tentar reproduzi-lo. Em um momento em que o rock parece constantemente revisitar suas próprias referências, o THE BAND FEEL encontra em What Of Now uma maneira de dialogar com diferentes décadas sem transformar o álbum em uma simples homenagem ao que já foi feito.
Lançado em 21 de agosto pela Fuzzy Warbles e produzido por Paul Moak, produtor cinco vezes indicado ao Grammy, o primeiro álbum de estúdio da banda reúne 13 faixas distribuídas em pouco mais de 50 minutos. O resultado é um trabalho que passeia pelo rock clássico, blues, soul, R&B e psicodelia, alternando momentos mais diretos com outros que valorizam atmosfera, construção e experimentação.
Formado em St. Louis, Missouri, o quarteto atualmente conta com Garrett Barcus nos vocais, Tyler Armstrong na guitarra, Kadin Rea no baixo e T.J. Steinwart na bateria. A banda começou a chamar atenção antes mesmo do lançamento do álbum, acumulando milhões de visualizações nas redes sociais e dividindo palcos com nomes como ZZ Top, Cheap Trick, Dirty Honey e Rival Sons.
Logo em “Thousand Mornings”, o THE BAND FEEL estabelece a atmosfera que acompanhará boa parte do disco. A produção privilegia instrumentos orgânicos e uma sonoridade quente, enquanto os vocais de Garrett Barcus carregam a música com intensidade sem perder a naturalidade.
“Better Days” segue por uma direção mais acessível e apresenta uma das características mais interessantes do grupo: a capacidade de transformar referências vintage em algo que não soa completamente deslocado de 2026.
Essa sensação fica ainda mais evidente em “Summer Song”. A faixa tem uma leveza quase ensolarada e uma sonoridade que remete diretamente ao rock californiano dos anos 1970. Não por acaso, a Classic Rock descreveu a música como uma composição que canaliza a atmosfera de Laurel Canyon.
Mas o mérito do THE BAND FEEL está justamente em não depender apenas da nostalgia. As referências estão presentes, mas funcionam como ponto de partida para a construção de uma identidade própria.
“Twice Alive” é outro momento de destaque. A faixa apresenta uma dinâmica que permite que guitarra, baixo e bateria trabalhem juntos sem que nenhum elemento pareça excessivo. O resultado é uma música envolvente, com vocais que conduzem a composição e ajudam a criar uma atmosfera quase cinematográfica.
Em seguida, “The Way Out” e “Stay Around” ampliam essa sensação. Enquanto a primeira trabalha uma construção mais progressiva, “Stay Around” aposta em uma estrutura mais imediatamente envolvente.
É justamente nessa alternância que What Of Now encontra boa parte de sua força. O álbum não precisa manter a mesma intensidade durante os seus quase 51 minutos. Pelo contrário: ele entende que o contraste entre momentos mais enérgicos e passagens contemplativas é fundamental para criar uma experiência mais completa.
“Answers” mantém essa proposta, enquanto “Libel”, com apenas dois minutos, funciona quase como uma pequena vinheta dentro da narrativa do disco. A sequência ganha ainda mais significado com “What of Then”, de apenas 1min43s, preparando o terreno para a faixa que dá nome ao álbum.
“What of Now”: o centro do álbum
Com 10 minutos e 15 segundos, “What of Now” é a composição mais longa do disco e também uma das que melhor representam a ambição artística do THE BAND FEEL.
A música não tem pressa. Em vez de buscar imediatamente um refrão explosivo, a banda trabalha a tensão gradualmente, permitindo que os instrumentos construam o clima até que a composição encontre seu próprio ápice.
Essa característica já podia ser percebida nas apresentações ao vivo do grupo antes do lançamento do álbum. Em uma apresentação realizada em 2025, a música foi descrita como uma composição de construção lenta, capaz de criar tensão justamente por adiar a resolução.
E talvez seja esse o melhor exemplo de que What Of Now não pretende ser apenas um álbum de músicas fáceis de consumir. Há espaço para desenvolvimento, silêncio, repetição e atmosfera.
O título também ganha um peso maior nesse contexto. Se “What of Then”, imediatamente anterior, olha para aquilo que ficou para trás, “What of Now” parece deslocar a discussão para o presente. O passado está claramente presente na sonoridade do grupo, mas a pergunta central permanece: o que fazemos com tudo isso agora?
Depois da faixa-título, “Libby Hill” devolve o álbum a uma dimensão mais intimista. A presença do violão e a abordagem mais contemplativa mostram outro lado do grupo, que também já havia sido explorado nas apresentações ao vivo da banda. “A Forever with You” segue por um caminho igualmente delicado antes de “Heavy Echo” encerrar o álbum.
O encerramento é significativo porque não tenta necessariamente terminar a experiência com uma explosão. Em vez disso, a faixa funciona como uma espécie de eco — pesado, mas também melancólico — de tudo aquilo que foi construído ao longo do disco. E é justamente essa sensação que permanece depois que What Of Now chega ao fim.
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O passado como ponto de partida
O THE BAND FEEL certamente não esconde suas referências. É possível encontrar ecos de diferentes vertentes do rock dos anos 1960 e 1970, além de elementos de soul, blues e psicodelia. Comparações com nomes como Led Zeppelin e The Black Crowes, inclusive, já apareceram em avaliações das apresentações da banda. Mas reduzir What Of Now a um álbum de revival seria injusto.
O grupo parece compreender que nostalgia, sozinha, não sustenta uma carreira. É preciso transformar essas influências em algo que faça sentido para quem está ouvindo agora. E essa talvez seja a principal qualidade do disco.
A própria banda resume essa intenção ao falar sobre sua relação com diferentes gerações: “Para a geração mais velha, estamos despertando nostalgia, e para a geração mais jovem, estamos criando nostalgia”, como definiu o guitarrista Tyler Armstrong.
What Of Now é, portanto, um álbum que olha para trás sem permanecer preso ao passado. O THE BAND FEEL recupera a textura, a liberdade e a organicidade do rock clássico, mas apresenta tudo isso através da perspectiva de uma banda jovem que está construindo sua própria história.
Mais do que tentar reinventar o rock, o quarteto parece interessado em lembrar por que esse gênero continua sendo tão fascinante: pela guitarra que chama atenção, pelo vocal que transmite emoção, pela bateria que conduz a música e, principalmente, pela capacidade de criar uma conexão que não depende de época.
Em 'What Of Now', o THE BAND FEEL mostra que algumas sonoridades podem até pertencer ao passado, mas continuam tendo muito a dizer sobre o presente.
Ouça 'What Of Now' na íntegra:
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